14 de abril de 2018

orides

quando na adolescência o umbigo é enorme, me lembro de achar que eu é que tinha nascido em tempos ásperos. o tempo era de pobreza e ditadura no brasil, ocupação soviética na hungria (de onde minha família tinha saído), a guerra fria como uma lâmina sobre o pescoço do mundo. o mundo injusto. o mundo em guerra. e nas histórias que ouvia, me surpreendia que houvesse amor na guerra. que pudesse haver quem se apaixonasse quando tudo bombas e escombros, que tivesse filhos na fome, que cantasse na dor, que escrevesse poesia nos horríveis tempos da guerra. depois, bem depois me dei conta que o mundo está todo o tempo em guerra. em guerras. no meio das guerras nascemos e morremos e, de uma ponta a outra, a vida.
cresci e os pés no chão me lembram o tamanho que sou. o tamanho de todo ser vivente, existente. a guerra, as guerras, e a gente canta. a gente ama, tem filhos ou não tem, cuida de uma planta, um bicho. cada um percorre os dias, o ar entra e o ar sai dos pulmões. no meio disso que vemos guerra, é possível abrir espaços para o que não é guerra. sementes de espaço-tempo de não guerra.
pensando nisso é que consegui me organizar para ler poesia nestes tempos. ler orides.
porque alguém um dia entrou estrangeiro numa livraria em são paulo, pegou um livro quase ao acaso e o abriu. e o leu. e alguma coisa ecoou. o poema de orides escrito muitos anos antes sobreviveu como uma semente de possibilidades.
e pelos caminhos que a vida nos leva, estou aqui, vivendo o momento em que a obra de orides é traduzida para o catalão por aquele um alguém que a encontrou ao acaso.
mesmo que os tempos sejam de guerra, respiro e cuido sementes.
 

“Semeio sóis
e sons
na terra viva

afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.
Não me importa a colheita.”
(Orides Fontela)

5 de abril de 2018

falta de censo


tantas pessoas morrem e a gente não sabe quantas nascem fazem parte da nossa vida e a gente nem: uma luz se acende no andar de cima se apaga quarto ao lado ninguém vê os dias que passam manhã tarde noite um café um passeio na praia a gente não sabe a cara do vizinho quem vive perto quem vem de longe as luzes que se apagam que se acendem no inverno mais cedo no verão este calor e há quem sinta frio e há também quem diga eu sinto eu desisto. quantas pessoas. quem sabe.

18 de março de 2018

na pressa


muitos cegos desciam as escadarias do metrô em fila indiana. o primeiro deles conduzido por um cão. ultrapassei-os na minha pressa. depois, sentada à espera do trem, eles me rodearam e se sentaram também. fechei os olhos para saber o que sente um cego entre outros cegos à espera na multidão. quando veio o trem nos levantamos todos e seguimos. para que eu não me perdesse, um deles me deu a mão. agora que subimos escadas, sei o cheiro do dia claro, alguém com pressa nos ultrapassa, vou de mão dada, seguimos aquele que leva o cão. cegos entre cegos, nos guia o arfar desse cão.

13 de março de 2018

tanto lugar num



a cada manhã o mundo é outro. quando se mora diante de uma árvore observando-a a cada dia, isso é mais claro. nem por isso evidente. a gente olha o mundo todo dia mas quase só vê o que já pensa saber, só o que sabe que verá. quando era criança e deitava na poltrona de cabeça para baixo, gostava de imaginar como seria pisar o teto, desviar das lâmpadas, atravessar as portas. pisar o céu. os muitos lugares num lugar só.

28 de fevereiro de 2018

sem pé



minha mãe comentou que estava jogando fora papeis, organizando umas coisas, e no meio disso tudo tinha encontrado a foto de um tio tataravô. ela disse que ao ver a foto tinha se lembrado de mim. pedi que me mandasse a foto. não há muitas fotos de antepassados assim tão distantes e eu não localizava bem quem poderia ser aquele tio tataravô. ela disse já te mando. e mandou. e quando peguei a foto nas mãos, vi que era uma foto em preto e branco de uma urna destas em que se guarda cinzas. liguei de volta e disse mãe, a foto é de uma urna funerária, como é que você pode me achar parecida com o tio tataravô? ela respondeu não disse que você fosse parecida com ele, disse que a foto me fez lembrar de você, mas é por conta da escultura de esquilinho da tampa da urna. olhei e havia mesmo um esquilinho na tampa e talvez a minha cara de espanto fizesse o esquilinho naquele momento ter cara de mim.

19 de fevereiro de 2018

planck lenght


apagando umas notas no telefone, encontro uma palavra que não sei quem não sei quando me pediu para anotar, e buscando imaginar quem poderia ter sido, faço uma busca rápida na enciclopédia virtual e, entre palavras que ao intuir que me dizem tanto mas que não entendo nada, encontro um parágrafo que leio e releio até os olhos se encherem de lágrimas tanto pelo esforço quanto pela dificuldade de compreender e reconheço a capacidade destas palavras de me levarem para um outro mundo, como quando alguém com muita fome pensa árvores mas não pensa rúcula, e num tempo em que não consigo pensar palavras nos temas que antes me interessavam mas que agora me deixam quase apática, a descrição da visualização do comprimento de planck me comove, pois como não me comoveria imaginar – imagine – um ponto de pó de 0,1 milímetro, que é mais ou menos a menor coisa que nós humanos conseguimos ver a olho nu, pois imagine este ponto minúsculo ampliado para o tamanho de todo o universo observável e, ao olhar para todo este universo amplo, imagine um pequeno ponto de 0,1 milímetro, que mais exatamente está dentro do que antes era, em si, um ponto de 0,1 milímetro mas que agora se refere ao universo todo, pois este ponto - o comprimento deste ponto dentro do ponto - é que tem o nome que anotei quando não sei, mas agora claramente sei que quem me pediu um dia foi menor que uma partícula destas, como todos, sei, fomos num princípio assim pequenos mas poucos, bem poucos, foram assim tão mínimos dentro de mim.

13 de fevereiro de 2018

janusz korczak


“A criança que você pôs no mundo pesa cerca de dez libras. É feita de oito libras de água e de um punhado de carbono, cálcio, nitrogênio, sulfato, fósforo, potássio e ferro. Você deu à luz a oito libras de água e duas libras de cinzas. Assim, cada gota de seu filho era o vapor da nuvem, o cristal da neve, da bruma, do orvalho, da água da nascente e da lama do esgoto. Milhões de combinações possíveis de cada átomo de carbono ou nitrogênio.
Você apenas reuniu o que já existia.
Olhe a Terra suspensa no infinito.
O Sol, seu próximo companheiro, está a cinqüenta milhões de milhas.
Nosso pequeno planeta não é mais que três mil milhas de fogo recoberto por uma película que tem apenas dez milhas.
Sobre esta fina película, um punhado de continentes jogados entre os oceanos.
Sobre estes continentes, no meio das árvores, arbustos, pássaros e animais – o ruído dos homens.
Entre estes milhões de homens, está você, que deu à luz a um homem a mais. O que é ele? Um galhinho, uma poeira – um nada.
É tão frágil que uma bactéria pode matá-lo; uma bactéria que aumentada mil vezes é apenas um ponto no campo visual.
Mas este nada é irmão das vagas do mar, do vento, do relâmpago, do Sol, da Via Láctea. Este grão de poeira é irmão da espiga de milho, da relva, do carvalho, da palmeira, irmão de um passarinho, do filhote de leão, de um cãozinho.
Neste nada há qualquer coisa que sente, deseja, observa; que sofre e que odeia; que é feliz e que ama; que tem confiança e que duvida; que acolhe e que rejeita.
Este grão de poeira encerra em seu pensamento as estrelas e os oceanos, as montanhas e os precipícios. E o que é a essência da alma senão todo o universo, faltando apenas as suas dimensões.
É esta a contradição inerente ao ser humano: nascido de um quase nada, Deus está nele”.

3 de fevereiro de 2018

no caminho de pedras




"el arco de las alianzas ha penetrado en mi nido con todo su colorido se ha paseado por mis venas y hasta la dura cadena con que nos ata el destino es como un diamante fino que alumbra mi alma serena"

10 de janeiro de 2018

na ausência de paisagem




"Não se pode falar do deserto como de uma paisagem, pois ele é, apesar de sua variedade, ausência de paisagem.
Essa ausência concede a ele sua realidade.
Não se pode falar do deserto como de um lugar; pois ele é, também, um não lugar; o não-lugar de um lugar ou o lugar de um não-lugar.
Não se pode pretender que o deserto seja uma distância, porque ele é, ao mesmo tempo, real distância e não-distância absoluta por causa de sua ausência de marcas. Ele tem, como limites, os quatro horizontes, sendo o que os liga e os separa. Ele é sua própria separação onde ele se torna lugar aberto; abertura do lugar. Não se pode pretender que o deserto seja o vazio, o nada. Não se pode, tampouco, pretender que ele seja o término, uma vez que ele é, igualmente, o começo.
(Edmond Jabès, Este Homem Absurdo, em tradução de Caio Meira)

3 de janeiro de 2018

líquidos, luzes, lentes, escuros.



era um tempo de fotografar, revelar o filme, ampliar.

naquele dia eu tinha pressa, muita pressa.
uma reunião linda de catadores num galpão e até a luz era mágica.
antes de viajar, precisava revelar, selecionar umas fotos, ampliar e entregar.
as fotos já estavam ali, eu sabia.
só faltava a parte manual de enrolar o filme na espiral, meter no pote, líquido um, líquido dois, líquido tres. secador. voilá. depois a luz no papel, outra vez líquido um dois e tres. secar.

entrei no quarto escuro, abri o filme, enrolei na espiral. estranhei por um momento que tudo tivesse sido tão fácil. em geral, na insegurança e no tato a gente sentia se a ponta estava presa no miolo da espiral. e notei que não precisei usar o tato, que dava pra ver que tudo estava perfeitamente encaixado...

nunca mais me esqueci daquelas fotos. da cara das pessoas, da luz, dos pontos de poeira brilhando no galpão sombreado.
também alguns livros. que não li até o fim e permanecem suspensos.
abraços que não foram dados.

há quem diga se fosse colorida seria mais bonita a foto.
há quem diga ponha maiúsculas e mais gente vai ler.
outros: eu, sim, me despedi.

dentro de mim silencio: o imperfeito, o incompleto, o impermanente.
já nem digo: esquecer.