20 de fevereiro de 2017

um poema de edmundo camargo

Voz Mínima 

El viento llena su red
con pájaros
y a la noche el viento la llena
con astros.
Mas se el viento entra a mi alma
y la sacude, las hojas
caen a través de mis ojos.

Su canto estaba lleno
de luciérnagas
y su palabra percutida
era un rostro de vidrio
al silencio.
Calló, y entró la noche
a llenar el vacío.

El polvo se alzó en cruces
la piedra manó sed
los pájaros
huyen mi corazón
mientras el aire
quiebra su vuelo petrificado
como lanzas de cristal.



Su puerta estaba cerrada
como la cicatriz
de su ausencia.
Pasó mi pie
mas se quedó mi alma
como perro guardián
a orilla de una tumba.

17 de fevereiro de 2017

um poema de blanca varela

Es fría la luz

Es fría la luz de la memoria
lo apenas entrevisto brilla
con insistencia
gira buscando el casco de botella
o el charco de lluvia


tras cualquier puerta que se abre
está la luna
tan grande y plana
tan fuera de lugar
como si de un cuadro se tratara
óleo sobre papel
endurecido por el tiempo

así cayeron en la mente
formas y colores
casualidades
azar que anuda sombras
vuelcos en la negra marmita
donde a borbotones
se cuecen gozo y espanto

crece el yeso de un cielo
mil veces lastimado
mil veces blanqueado
se borra el mundo y se vuelve
a escribir
hasta el último aliento

sólo esto
eternidad aparente
mísera astilla de luz en
la entraña
del animal
que apenas estuvo

15 de fevereiro de 2017

um poema de adrienne rich


O poder

Vivendo nos sedimentos-de-terra da nossa história

Hoje de um flanco de terra a esboroar-se um ancinho divulgou
uma garrafa âmbar perfeita cura
centenária para a febre ou melancolia um tónico
para viver nesta terra nos invernos deste clima

Hoje lia sobre Marie Curie:
ela devia saber que sofria de radiações
o corpo bombardeando anos a fio pelo elemento
que ela tinha purificado
Parece que negou até ao fim
a origem das cataratas dos olhos
a pele rachada e purulenta das pontas dos dedos
até já não conseguir segurar um tubo de ensaio ou lápis

Morreu mulher famosa negando
as suas feridas
negando que
as suas feridas tinham a mesma origem que o seu poder.

(tradução: Maria Irene Ramanho e Monica Varese Andrade, via Laura Erber)

13 de fevereiro de 2017

um poema de j. cortázar

Para leer en forma interrogativa

Has visto
verdaderamente has visto
la nieve los astros los pasos afelpados de la brisa
Has tocado
de verdad has tocado
el plato el pan la cara de esa mujer que tanto amás
Has vivido
como un golpe en la frente
el instante el jadeo la caída la fuga
Has sabido
con cada poro de la piel sabido
que tus ojos tus manos tu sexo tu blando corazón
había que tirarlos
había que llorarlos
había que inventarlos otra vez.

9 de fevereiro de 2017

um poema de pedro henriques britto

Madrigal

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.


As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.

8 de fevereiro de 2017

um poema de hilda hilst

XVI
“O que vemos das coisas são as coisas.”
Fernando Pessoa

As coisas não existem.
O que existe é a ideia
melancólica e suave
que fazemos das coisas.
A mesa de escrever é feita de amor
e de submissão.
No entanto
ninguém a vê
como eu a vejo.
Para os homens
é feita de madeira
e coberta de tinta.
Para mim também
mas a madeira
somente lhe protege o interior
e o interior é humano.
Os livros são criaturas.
Cada página um ano de vida,
cada leitura um pouco de alegria
e esta alegria
é igual ao consolo dos homens
quando permanecemos inquietos
em resposta às suas inquietudes.
As coisas não existem.
A ideia, sim.
A ideia é infinita
igual ao sonho das crianças.

7 de fevereiro de 2017

um poema de adília lopes

No more tears

Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não pode se fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar

6 de fevereiro de 2017

um poema de anne sexton

Tal vez la tierra flote,
no lo sé.
Tal vez las estrellas sean figuritas de papel
cortadas por una tijera gigante,
no lo sé.
Tal vez la luna es una lágrima congelada,
no lo sé.
Tal vez Dios sea una voz profunda
que un sordo oye,
no lo sé.
Tal vez no soy ninguna.
Es cierto, tengo un cuerpo
y no puedo escaparme de el.
Me encantaría volar lejos de mi cabeza,
pero sobre eso no hay discusión.
Está escrito en la tabla del destino
que permanezca acá, metida en esta forma humana.
Siendo ese el asunto,
quiero llamar la atención sobre mi problema.
Dentro de mí hay un animal
que me agarra el corazón,
un enorme cangrejo.
Los médicos de Boston
metieron mano.
Probaron con escalpelos,
agujas, gases venenosos y todo eso.
El cangrejo persiste.
Es un gran peso.
Yo trato de olvidarlo, me ocupo de mis cosas,
cocino el brócoli, abro libros cerrados,
me cepillo los dientes, me ato los zapatos.
Probé con la plegaria,
pero cuanto más rezo más aprieta el cangrejo
y el dolor aumenta.
Una vez soñé,
tal vez fue un sueño,
que el cangrejo representaba mi ignorancia de Dios.
Pero ¿quién soy yo para creer en los sueños?


(Versión: Isaias Garde)

5 de fevereiro de 2017

um poema de barbara korun

A lua há de cobrir-me

Tenho dois animais.
Um rubro, outro azul.
Quando o azul bebe, o rubro
ataca.
E ao contrário.
Nunca consigo apanhá-los,
esticada entre o que repousa e o que corre.

Baixarei um pensamento
assim
longe longe na planície.
Não me notarão

Deitarei na relva
próximo ao poço e
adormecerei.
A lua há de cobrir-me.

Amanhã
com os primeiros raios horizontais
eles chegarão.
Extenuados, suados, focinhos espumantes.

Depois
juntos
tomaremos água.

(tradução de Aleksandar Jovanovic)