8 de maio de 2012

receitas vegetarianas

fui contratado para escrever sobre a vida dela. uma vida sem grandes coisas, nada que me animasse. tempo de vacas magras, aceita-se quase tudo. ao longo de várias terças-feiras nos encontrávamos e eu insistia que me contasse sua infância, a juventude, filhos, sonhos, projetos, grandes lembranças. ao fim de cada dia, entre ciscos de informação, sobrava entre meus dedos o que ela repetia sobre si mesma ou sobre os outros: a gente nasce, a gente morre. cresce. ama desama. tem filhos não tem. pensa, fica triste, fica feliz. é tudo. e era tudo. uma pessoa agradável, claro, e doce, mas eu queria um mistério, minúsculo que fosse. numa tarde morna, marcou nossa conversa de terça num parque perto de sua casa. quando cheguei, crianças a rodeavam e ela se divertia como eu nunca tinha visto. me aproximei, as crianças saíram correndo. naquele dia ela se lembrou de uma festa de aniversário do tempo em que ainda vivia numa cidade pequena do interior. dizia minúcias nas descrições – e uma imobilidade no gesto como nunca antes. descreveu a casa, a criança que fazia aniversário, as outras crianças, os enfeites, as brincadeiras, a mesa com bolo e brigadeiro... e de repente como se tivesse acabado a energia em seu corpo. como se um botão se desligasse. fechou os olhos, ficou pálida como a morte. eu, em pânico. pedi ajuda. juntou gente, ambulância. hospital. o desmaio era um coma. estava em coma. não sei se por ter me apegado a ela ou por minhas terças-feiras terem ficado repentinamente vazias, passei a visitá-la. naqueles horários em que a família nunca pode, eu estava ao seu lado. das primeiras vezes, em silêncio. depois lendo em voz alta. por fim, conversando. até eu estranhava quando voltei a lhe fazer perguntas. se o silêncio me parecia muito pesado, eu mesmo respondia contando a ela das minhas coisas, meus medos, o pequeno que era a minha vida. numa destas inúmeras terças, voltei para casa e minha filha me esperava. não sou de muitas palavras, mas precisei falar daquilo tudo. ela era boa em fazer perguntas. e eu seguia respondendo. nada passava a fazer sentido, mas era bom conversar. antes de sair, já na porta, ela me perguntou se eu não teria uma boa receita de brigadeiro. respondi um pouco sem pensar que brigadeiro é tão simples que não tem receita. ela riu. desceu a escada. ouvi o barulho da porta batendo no térreo. no armário da cozinha, peguei uma lata de leite condensado, despejei num panela larga. acrescentei duas colheres de cacau em pó. uma pitada de sal. uma colher de manteiga. em fogo baixo, fui mexendo, calmamente, pensando em tudo aquilo. a colher de pau roçava o fundo da panela, raspava o doce cada vez mais líquido. o doce logo se juntava mar. cacau a entrar pelas narinas. olhei para o lado e reparei que não tinha guardado a canela usada de manhã nas bananas. sem pensar muito, polvilhei canela na massa do brigadeiro. e mexi. a consistência líquida engrossava. eu mexia cada vez mais rápido a raspar o fundo da panela, as paredes. aos poucos, o oceano marrom de cacau e canela passou a se abrir demorando a se tornar uma massa só, estava pronto. deixei esfriar enquanto lia o jornal de já quase a véspera. enrolei sete bolinhas que passei no granulado. coloquei num pote. tampei o pote. o pote na bolsa. no dia seguinte, fui vê-la, ainda que não fosse terça. li um pouco. fiz perguntas, respondi outras. então, disse a ela que tinha trazido uma surpresa. quando vi ninguém por perto, abri minha bolsa, tirei o pote, abri o pote e peguei um brigadeiro. levei-o até ela para que o cheirasse. achei que suas narinas tinham tremido um pouco. tirei um pedaço bem pequeno e coloquei delicadamente entre seus lábios, sempre tão ressecados. a enfermeira me assustou quando me viu debruçado sobre a cama. ouvi um: está tudo bem, senhor? em mim, um misto de alegria e aflição e já formulava a melhor explicação do mundo para quando a moça, além de sentir o aroma de cacau e canela, visse a boca marrom de chocolate e antes mesmo que eu tivesse que explicar a verdade, menti: achei que ela tinha se mexido e me aproximei para ver. a moça me afastou para vê-la. eu também me virei. nos lábios limpos e úmidos nenhum sinal de brigadeiro e sua mão apertou de leve a mão da enfermeira. foram ainda algumas semanas de recuperação, fono, fisio. trabalhei empolgado no texto, aquela vida tão comum. de vez em quando nos víamos para clarear dúvidas. todas as vezes, eu trazia na bolsa um pequeno pote com brigadeiros feitos na véspera. para o caso de. não precisamos deles. de noite, em casa, eu os devorava entre silêncios e contemplação. um dia morrerei. ela mesma reviu tudo, tirou palavras, acrescentou outras, trocou fotos de lugar. nunca mais falamos daquela festa. tempos depois, quando o livro finalmente pronto, editado, distribuído, passava o tempo de alguma espera numa livraria. vi o livro numa bancada, em promoção. me aproximei. antes de o alcançar, uma mulher se antecipou, abriu o livro, folheou, leu trechos. fechou, abriu, fechou. várias vezes. depois, chamou uma amiga e perguntou: vê se estou louca ou se é desse livro que vem esse perfume. de canela? disse a amiga. era.

Um comentário:

Fabiana disse...

tão, mas tão bonita esse pequeno conto/parábola de como a memória nos tira do torpor e nos ajuda a ultrapassar os limites do nosso corpo: quando a gente lembra, fica sem idade. feito o verso do quintana, que diz que idade, só tem duas: ou vivo, ou morto. e tão em boa hora! obrigada pela receita. beijos, com imensa saudade.